Empirical Articles

A Patologia Aditiva e a Repetição Familiar: Nós-Problemáticos Transgeracionais

The Additive Pathology and Family Repetition: Transgenerational Problematic Nodes

Ana Marques Lito*a, Ana Margarida Ferreirab

Resumo

Objetivo: O objetivo principal do estudo foi operacionalizar e validar o conceito operativo “Nós-Problemáticos”, encontrar perfis e, se possível tipologias familiares, para implementar abordagens de intervenção.

Método: Participaram na investigação de caráter misto 30 pares de irmãos (tóxico-dependentes/não toxicodependentes), com uma média de idade de 37,12 anos, aos quais foi aplicada a “Hope Scale”, uma pergunta de resposta aberta e uma entrevista semi-estruturada que estuda em profundidade as trajetórias de vida.

Resultados: O “Nó-Problemático Familiar” é o mais preponderante no grupo dos tóxico-dependentes, e o “Nó-Problemático” Social no dos irmãos não toxicodependentes. Sugere-se a existência de seis perfis diferentes.

Conclusão: O conceito operativo “Nós-Problemáticos” tornou-se operacional e deu-nos a possibilidade de o denominar como transgeracional, porque permitiu uma análise intergeracional e transgeracional das narrativas e das trajetórias de vida dos participantes. Revelou-se como sendo um complexo emocional que filtra e analisa os acontecimentos de vida e as subjetivações sobre as dinâmicas familiares e sociais, actuais e passadas, e também nos dá uma perspetiva das expetativas face ao futuro.

Palavras-Chave: toxicodependência, fratrias, repetição, Nós-Problemáticos transgeracionais

Abstract

Aim: The main objective of this study was to operationalize and validate the operative concept of “Problematic-Nodes”, find profiles and, when possible, family typologies to implement intervention approaches.

Method: Thirty sibling pairs (substance users/non-users), with a mean of age 37.12 years, participated in this mixed design study. The participants were given the Hope Scale, an open answer question, and a semi-structured interview that analyses life trajectories in-depth.

Results: The Family “Problematic-Node” is the most prominent in the group of drug users, and Social “Problematic-Node” is the most common in non-users. It is suggested the existence of six different profiles.

Conclusion: The operative concept of “Problematic-Nodes” became operational and gave us the possibility to call it “transgenerational”, because it allowed us to analyse intergenerational and transgenerational narratives and trajectories of participants' lives. This proved to be an emotional complex that filters and analyses the life events, and the subjectivities about present and past family and social dynamics, and also gives us a perspective of the expectations regarding the future.

Keywords: drug addiction, siblings, repetition, transgenerational Problematic-Nodes

Psychology, Community & Health, 2014, Vol. 3(3), doi:10.5964/pch.v3i3.96

Received: 2014-02-13. Accepted: 2014-05-20. Published (VoR): 2014-11-28.

Handling Editor: Pedro Alexandre Costa, Psychology & Health Research Unit (UIPES); ISPA - Instituto Universitário, Lisbon, Portugal

*Corresponding author at: Rua Tomás da Fonseca, nº 44 – 9º C 1600-258, Lisbon, Portugal. E-mail: anamarqueslito@gmail.com

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Introdução [TOP]

A clínica e as práticas de intervenção com tóxico-dependentesi e suas famílias parecem estar a influenciar os profissionais da área da saúde mental no sentido de uma representação social dos consumidores problemáticos como sujeitos psicológicos capazes de infletirem os seus percursos de vida, e capazes de integrarem na sua intervenção médico-psicoterapêutica uma postura de abertura e de esperança não estigmatizante.

A cultura contemporânea do protagonismo, do espetáculo e do consumo tem empurrado a subjetividade das pessoas para processos de dependência emocional e funcional de objetos inertes (substâncias psicoativas, jogo, informática, compras, consumos compulsivos, etc.), que inscrevem paradoxos existenciais e relacionais, que importa decifrar. Estes objetos parciais, inertes e muitas vezes negados e invisíveis para os próprios, deslocam-se mimética e geracionalmente pela transmissão familiar, e assumem-se na vida mental e relacional dos descendentes como totémicos e narcisicamente gratificantes. As substâncias, a comida, os objetos de consumo, o jogo, e a informática revestem-se de uma força vital de meta comunicação pervertida pelas propriedades mágicas e securizantes que lhes são atribuídas.

A herança e a tendência para processos autodestrutivos repetidos geracionalmente que desafiam a vida e a morte remetem-nos para a existência de Nós-Problemáticos transgeracionais, em que a dimensão deficitária do narcisismo, do traumatismo infantil e do trauma acumulativo (Khan, 1977) consiste, muitas vezes, em sobreviver emocionalmente aos efeitos da angústia do cair violentamente e sem aviso em experiências de vazio, de buraco negro (Grotstein, 1999), e de fratura vincular no holding familiar versus social.

O nosso modelo clínico-teórico inscreve-se na metapsicologia dos vínculos intersubjetivos e na representação do investimento narcísico que os sujeitos realizam numa unidade de pertença a que Eiguer (1996) chama o si-familiar. Os vínculos desenvolvem-se na representação dos objetos internos e na dinâmica das relações interpessoais que se realizam entre os membros de uma família. Podem ser inconscientes, mas também podem implicar uma interação cuja representação advém da transmissão, quer dos pais e dos avós, ou de outros ancestrais, que impõem ou não a lei do interdito, ou seja, da diferença geracional, e a dos sexos.

Bleger (1967), inspirando-se numa estrutura narcísica permanente no seio familiar, concetualizou uma posição que denominou de nós sincréticos, que se apresentam como a “primeira matéria psíquica” que poderá originar a identidade do sujeito. Considera que manter-se neste posicionamento mental cria ambiguidade, que “não há dúvida, não há certeza, não há confusão, há indiferenciação que se apresenta como um défice de discriminação entre o eu e o não-eu” (p. 206). Para este autor, o modo primitivo do vínculo pode permanecer no sujeito, provocando movimentos de aglutinação psíquica, que o leva a viver na dependência do Outro, pela identificação projetiva patológica, na clivagem e na confusão, não dando conta da influência de objetos transgeracionais. Estes objetos transgeracionais suscitam fantasmas, provocam identificações e contra-identificações, que intervêm na constituição das instâncias psíquicas, no eu e no super-eu de um ou em vários membros de uma família, bem como nos processos de mitopoiese familiar (Eiguer, 1996, 2008).

Os Nós-Problemáticos transgeracionais são, então, estudados numa perspetiva intersubjetiva de mal-estar, de stress e de sofrimento não mentalizado, mas materializado pelos objetos fantasmáticos transgeracionais, nas respostas impulsivas e na compulsão de repetição de consumo, como solução para os problemas existenciais que se transmitem entre e pelas gerações. Tratam-se de vulnerabilidades emocionais individuais, familiares ou sociais em que o significante está vazio de sentido para o sujeito. Podem ser corolários de irracionalidade para o próprio, de um tempo parado pelo impacto de acontecimentos de vida traumáticos, que levam a processos de luto suspensos ou desconhecidos, em quadros narcísicos deficitários nos sujeitos, que evoluem e se repetem na cadeia geracional.

Deste modo, neste estudo realizado com 30 pares de irmãos, um tóxico-dependente e outro não, procuramos validar o conceito operativo de Nós-Problemáticos (Torres, Lito, Sousa, & Maciel, 2008), bem como estudar e comparar as trajetórias de vida dos participantes pró-curando uma coerência epistemológica com a análise das narrativas emergentes. Psicologicamente definimos os Nós-Problemáticos como complexos emocionais/psíquicos e relacionais que se organizam em labirintos mentais, que inscrevem vínculos vulneráveis, que encerram e fixam os sujeitos na bolha do tempo, em representações fantasmáticas, em ansiedades difusas, na insatisfação e na compulsão à repetição sem sentido, bem como em atitudes e comportamentos de dependência (Ausloos, 1995, 2009; Lito, 2010a; Zimbardo & Boyd, 2008).

O tempo parado ou distorcido na vida psíquica dos participantes, resultante de experiências catastróficas não mentalizadas de abusos primordiais e de intrusões nas dinâmicas familiares, muitas delas vividas como traumáticas, com processos de luto adiados, em suspenso, e de difícil resolução, problematizam as escolhas e os percursos de vida, inscrevendo essas vulnerabilidades conscientes e outras inconscientes nos processos de transmissão geracional. Os vínculos intersubjetivos de respeito, responsabilidade, de reciprocidade, e de reconhecimento (Eiguer, 2008), os mitos familiares e os organizadores fraternais foram analisados nas subjetivações dos nossos participantes, tendo em conta que a transmissão psíquica tanto é consciente como inconsciente, positiva e negativa, moral, intelectual, psíquica, mas sempre ativa. Realiza-se e constrói-se por dinâmicas e movimentos duplos entre duas ou mais gerações, pela filiação, incluindo as relações fraternais, e pela afiliação, que é assegurada pela ligação a novos grupos, a pares e/ou companheiros (Ruiz Correa, 2001).

A vida psíquica dos pais, avós, porta-vozes ancestrais, é transmitida à prole pelas alianças, pelos pactos e contratos inconscientes, e também por missões ou lealdades, como projetos identificatórios invisíveis (Aulagnier, 2009; Boszormenyi-Nagy, 1991; Jaitin, 2006; Kaës, 2005, 2008; Stierlin, 1977, 2007). Nesta perspetiva, o(s) herdeiro(s) pode(m) aceder aos processos de subjetivação à medida que edificam a sua singularidade identitária, organizando-se no processo de alteridade, na constelação edípica, direcionada para um futuro viável.

Com esta investigação propusemo-nos compreender o processo de tornar-se tóxico-dependente, processo co-evolutivo das Famílias de Vidro (Lito, 2010a, 2010b). Estas caracterizam-se por desenvolver comunicações paradoxais, outras transparentes - sem limites - virtuais no mundo global, no tríptico analítico: indivíduo, contexto, e subjetivação. Admitimos que as narrativas dos sujeitos, ao recordarem episódios da sua vida, enunciam a descoberta de novas significações da sua história, bem como a experiência subjetiva vivida e evocada pelas memórias, convocam enigmas comunicacionais pela ressonância emergente da profundidade intrapsíquica. Por fim, tentamos reconhecer não só as expetativas face ao futuro, tomando a esperança enquanto virtude, como atitude co-construtiva perante a realidade e princípio orientador (Rocha, 2005; Snyder, 1995). As dimensões críticas das polaridades semânticas individuais e familiares (Ugazio, 2001) surgem como o meio de organização dos processos de subjetivação que orientam as representações mentais dos sujeitos.

Colocou-se como questão central da pesquisa: Porque é que irmãos da mesma família, a partir da adolescência, embora possam ter realizado a experimentação de substâncias psicotrópicas, se observa que um realizou uma trajetória de vida de consumos problemáticos, um processo de toxicodependência, e o outro não. Também se pretende perceber porque é que, muitas vezes, os filhos repetem geracionalmente aquilo que reprovam na geração precedente, como por exemplo, o alcoolismo dos pais.

Como objetivos deste estudo propusemos (1) Operacionalizar e validar o conceito operativo de Nós-Problemáticos (Torres et al., 2008), encontrar perfis e, se possível tipologias familiares, para implementar abordagens de intervenção; (2) Identificar nas trajetórias de vida as vulnerabilidades nos contextos social, familiar, e individual, as experiências marcantes que se fixaram na bolha do tempo, e como se repercutem nos processos de tóxico-dependência; (3) Identificar os dilemas existenciais a partir de polaridades semânticas dos circuitos recursivos inextricáveis (Ugazio, 2001), que orientam as representações mentais e organizam os processos de subjetivação dos participantes; (4) Avaliar se os irmãos que não realizaram trajetórias de consumos problemáticos de drogas revelam problemas de co-dependência e/ou de familio-dependência; e por fim (5) Saber se os níveis de esperança entre os irmãos influenciam as trajetórias de vida.

Método [TOP]

Participantes [TOP]

A amostra é constituída por 60 participantes (30 tóxico-dependentes e 30 irmãos não toxicodependentes), com média de idade de 37.12 anos (DP = 7.83), sendo que o sujeito mais novo tem 19 anos e o mais velho 52 anos. Na sua maioria são do género masculino (40 homens, 20 mulheres), 49 sujeitos estão ativos profissionalmente e fazem parte do grande grupo profissional 5 (Pessoal dos Serviços e Vendedores). A droga de eleição foi a heroína para 18 participantes, seguida da cocaína para seis participantes, as combinações de álcool associado aos canabinóides (haxixe) e heroína misturada com a cocaína (speedball) foram eleitas por dois participantes cada. Já o álcool e o exctasy foram eleitos por apenas um participante cada. Os sujeitos consumiram em média 12.51 anos (DP = 5.58). O valor máximo de consumo foi de 22 anos e o mínimo de um ano e meio.

Instrumentos [TOP]

Foi usada a Hope Scale (Snyder et al., 1991) adaptada para português por Ribeiro, Pedro, e Marques (2006) dando-lhe o nome de Escala da Esperança (no futuro). É uma escala de Likert de 4 pontos com 12 itens agregados em duas subescalas, sendo que os itens 2, 9, 10, e 12 estão relacionados com a subescala Energia ou Iniciativa que se dispõe para atingir os objetivos, e os itens 1, 4, 6, e 8 estão relacionados com a subescala Caminhos ou Estratégias que se consegue encontrar para chegar à meta/objetivo. A análise fatorial exploratória permite a identificação de dois fatores, e a consistência interna da escala e de cada subescala é adequada. No entanto, a análise fatorial confirmatória mostra, segundo Ribeiro et al. (2006), que para a versão portuguesa apresentada, um modelo unidimensional (CFI = 0.91) é mais adequado do que o de dois fatores sugerido pelo modelo original (CFI = 0.70).

Foi ainda realizada uma pergunta de resposta aberta de forma a poder qualificar a escala anterior: “Se fechar os seus olhos e pensar no futuro, qual é a primeira imagem sua e da sua vida que lhe vem à sua cabeça?”.

Por fim, aplicou-se uma entrevista semi-estruturada presencial, com duração média de uma hora e meia, adaptada da entrevista construída por Torres e Lito (2008), que analisa em profundidade as trajetórias e os momentos significativos que marcaram orientações e o rumo de vida dos participantes a partir da sua adolescência.

Procedimentos [TOP]

A amostra foi conseguida através de um processo de amostragem por conveniência e por bola de neve. Os tóxico-dependentes fizeram um percurso de pelo menos um ano de consumos problemáticos de substâncias psicoativas, diário, onde desenvolveram quadros de dependência física e psicológica. Estão ou estiveram em tratamento em unidades terapêuticas e ambulatórias na área da grande Lisboa (18 sujeitos), nos Narcóticos Anónimos (N.A.) da área da grande Lisboa e do Algarve (7 sujeitos), ou numa Comunidade Terapêutica (5 sujeitos). Os irmãos, embora possam ter tido consumos esporádicos, não fizeram uma trajetória de consumos de drogas e/ou de tratamentos. Foram referenciados para o estudo pelos próprios tóxico-dependentes. Pela análise de conteúdo da entrevista semi-estruturada pudemos validar os critérios anteriormente propostos para a definição da amostra, eliminando os pares que não preenchiam os requisitos.

Foi pedida autorização aos autores da Escala de Esperança na versão portuguesa (Ribeiro et al., 2006) para a sua utilização. Depois de concedida, contactaram-se os diretores das equipas das unidades terapêuticas e ambulatórias, assim como os da Comunidade Terapêutica, a fim de solicitar não só a autorização para a realização do estudo naquelas instituições, como também de colaboração para a pré-seleção dos utentes que poderiam corresponder ao perfil e aos critérios desejados para a amostra. Fez-se ainda visitas a algumas reuniões abertas dos Narcóticos Anónimos com o intuito de explicar a nossa investigação e angariar os restantes elementos da amostra em falta (n = 7). As autorizações foram concedidas e, de fevereiro de 2009 até setembro de 2010, depois do consentimento informado dos 60 sujeitos voluntários procedeu-se à recolha dos dados. Os participantes também permitiram que a entrevista fosse gravada em áudio. A amostra ficou numerada e emparelhada de 1 a 30, usando nomes fictícios para respeitar o anonimato dos sujeitos.

Quanto ao método utilizado nesta investigação, podemos considerá-lo como método misto (Creswell, 2003; Tashakkori & Teddlie, 2003) ou metodologia mista (Tashakkori & Teddlie, 1998), uma vez que integra o método qualitativo e quantitativo.

Análise dos Dados [TOP]

Os dados foram analisados de forma indutiva, não tendo apenas por objetivo confirmar ou infirmar hipóteses construídas previamente, mas sim definir o processo de tornar-se tóxico-dependente, um problema a partir de uma trajetória, identificar perfis e, se possível, tipologias para desenvolver abordagens (Bogdan & Biklen, 1994). Procedeu-se a análise de conteúdo, utilizando o software MAXQDA, programa vocacionado para este tipo de análise. Considerou-se o Modelo Comunicacional de Gestão Coordenada de Significações (Neto, 2003; Pearce, 1999) e as Polaridades Semânticas (Ugazio, 2001). Realizou-se o refinamento progressivo das dimensões encontradas com base na seleção de informação mais pormenorizada proveniente da informação empírica (fase da codificação da análise de conteúdo). Por fim, exportaram-se os dados obtidos para o Statistical Package for Social Sciences, (SPSS), versão 14.0. Os Nós-Problemáticos foram construídos com base em indicadores que surgiram do nosso conhecimento teórico-clínico e cotados posteriormente assumindo valores de -2 a +2, em que -2 significa forte negativo e os seguintes, moderado negativo (-1), neutro (0), moderado positivo (+1) e forte positivo (+2). Os indicadores considerados para cada Nó-problemático foram os seguintes:

  • Nó-Problemático Individual: Sentimento de exclusão, sentimento de inclusão, imagem corporal, autoconfiança, autoestima, sexualidade, relações amorosas, doenças físicas, perturbações psicológicas, escolaridade, trabalho, influência de pares, autonomia financeira precoce, dependência financeira, experimentação de substâncias e dependência de substâncias;

  • Nó-Problemático Familiar: Conjugalidade, parentalidade, filiação, relações entre irmãos, doenças físicas, doenças psicológicas, mortes, separações, conflitos, desemprego, violência física/psicológica, responsabilidade familiar, respeito familiar;

  • Nó-Problemático Social: Acontecimentos socioculturais, imigração, mudanças de escola, mudanças de residência, cultura familiar/mito familiar, habitação, situação profissional, sentimento de exclusão, sentimento de inclusão e influência dos pares.

Posteriormente, foi possível qualificar estes indivíduos nos Perfis dos Nós-Problemáticos, como poderemos verificar nos nossos resultados. Da mesma forma, apresentamos também de seguida os resultados que dizem respeito à Esperança.

Resultados [TOP]

Com o intuito de responder à questão central e atingirmos os nossos objetivos, identificámos em cada caso um Nó-Problemático dominante (social, familiar ou individual), procurando nas narrativas das histórias de vida dos sujeitos os acontecimentos de vida e episódios significativos, relacionais e psicológicos emergentes.

Conforme a Tabela 1, verificámos que o Nó-Problemático Individual tem um impacto negativo nos tóxico-dependentes e positivo nos irmãos, sendo a diferença estatisticamente significativa (t(58) = -5.964; p < .001). Verifica-se o mesmo no Nó-Problemático Social, embora menos acentuado o impacto negativo nos toxicodependentes (t(58) = -4.252; p < .001). Já no que se refere ao Nó-Problemático Familiar, verifica-se o impacto negativo nos dois grupos, embora mais acentuado nos tóxico-dependentes. No entanto a diferença não é estatisticamente significativa (t(58) = -1.736; p > .05).

Tabela 1

Impacto dos Nós-Problemáticos nos tóxico-dependentes e irmãos

Nós-Problemáticos Individuala Familiarb Socialc
Tóxico-dependentes -.37 -.65 -.14
Irmãos .29 -.38 .29

at(58) = -5.964; p < .001. bt(58) = -1,736; p = n.s. ct(58) = -4.252; p < .001.

Quanto à proeminência dos Nós-Problemáticos (ordem dos impactos) encontrámos seis perfis como se observa na Tabela 2. Existe pois uma arrumação de influência, que está relacionada com a relevância dos níveis temáticos, que traduz também uma hierarquia. Isto é, depois de cada Nó-Problemático aparecem no Perfil, em primeiro lugar, as dimensões de vida - individual, familiar e social - que a análise de conteúdo relevou como as mais influentes.

Tabela 2

Proeminência dos Nós-Problemáticos

Nós-Problemáticos e Perfis: Ordem dos impactos Tóxico-dependentes (n) Irmãos (n)
Individual/Familiar/social 4 1
Individual/Social/familiar 3 3
Familiar/Individual/social 13 9
Familiar/Social/individual 6 3
Social/Individual/familiar 2 10
Social/Familiar/individual 2 4
Total 30 30

Salientamos que o terceiro e último Nó-Problemático em cada perfil, ficou assinalado em itálico, porque é aquele que ficou imerso nos contextos anteriores e inscrito em profundidade no complexo emocional do sujeito, que se desenvolveu ao longo da bolha do tempo. É aquele nível cuja influência considerámos “transparente” porque, apesar de se poder revelar um nível ausente-presente, atravessa as diferentes fases dos percursos de vida.

Portanto, foi a partir daquele tríptico contextual, da interpretação e da análise de conteúdo das narrativas que chegámos aos perfis encontrados: desde os acontecimentos de vida, às memórias dos episódios significativos e às subjetivações que os sujeitos realizaram acerca dos factos ocorridos ao longo dos seus percursos. Procurámos a força lógica implicativa (Neto, 2003; Pearce, 1999), pela apreensão dos circuitos recursivos inextricados, pelas polaridades semânticas: Autonomia versus dependência, bom versus o mau, o doente versus o saudável (Ugazio, 2001), das dinâmicas culturais, sociais, familiares e fraternais. Para ilustrar o Perfil mais comum nos tóxico-dependentes, o Familiar/Individual/social, selecionámos o seguinte exemplo:

Não vou dizer que foi uma situação ou outra pontual com o meu pai ou com a minha mãe que me levou, se calhar, a refugiar nestas coisas mas contribuiu de alguma forma para isso porque, pronto, sei lá, se não estamos bem em casa, depois também no meio dos amigos, quando somos novos, ninguém tem assim cabeça para dizer: não faças isto ou não faças aquilo...Na altura em que o meu pai ficou desempregado, o primeiro desemprego e que tinha muitas discussões com a minha mãe lá em casa, etc... eu pronto, por assim dizer, refugiei-me assim um bocado em drogas. Não estava bem em casa, ficava deprimido ou assim..” (..) porque ela (mãe) sempre foi muito apegada a mim e sempre fui o filhinho e não sei quê mas pronto, ela também gosta de igual forma da minha irmã... (Telmo, caso 9, tóxico-dependente)

Para o Perfil Social/Individual/familiar, mais frequente nos irmãos, apresentamos:

Eu sentia-me muito isolada no princípio, quando comecei a namorar com o meu marido, muito, não é excluída, mas não integrada na nossa comunidade religiosa... nós vivíamos muito isolados (...) Eu vou-lhe dizer uma coisa que se calhar até muita gente não sabe… quando eu estava para casar, a minha mãe e o meu pai estavam a passar uma crise existencial muito grande e a minha mãe estava para deixar o meu pai, porque não aguentava, e eu ia casar com uma família extremamente tradicionalista...o meu irmão desfalcou-nos muito. Basta saber que na véspera do meu casamento isso tudo aconteceu, por norma as mães têm que dar muito ouro às filhas, o ouro da minha mãe desapareceu todo, todo o ouro que ela teria para me dar, desapareceu. O meu casamento não foi aquilo que nós queríamos...(tóxico-dependência do irmão)... alterou a vida dele, alterou tudo… A minha mãe quando se casou com o meu pai, a minha mãe tinha pavor, a minha mãe tinha medo, a minha mãe tinha medo de falar, a minha mãe apanhou muito... hoje não, entretanto a minha mãe, como eu lhe disse, foi sempre o homem da casa, claro que os papéis se inverteram, não é? Hoje o meu pai já tem outra maneira de falar e de estar com a minha mãe... (Sofia, caso 10, irmão)

Pelos exemplos referidos, podemos verificar que o processo de trans-formação do sujeito, a partir da adolescência, pode ficar comprometido pela incorporação, pela introjeção de experiências dolorosas e frustes nos diferentes níveis de análise, e por identificações que alienaram, distorceram, ou paralisaram esses processos de desenvolvimento psicossocial, gerando pseudo-identidades ou desidentificações que empurraram os sujeitos para percursos de vida confusos, doentios e, frequentemente desorganizados.

A diferença entre irmãos e a repetição geracional poderá, assim, ser explicada pela incidência problemática e diferenciada de cada uma das dimensões anteriores: vulnerabilidades psicológicas, pressupostos culturais, políticos e religiosos, bem como a influência das dinâmicas familiares atuais ou herdadas, padrões de comunicação específicos, atendendo aos processos mitopoiéticos que se impõem e transmitem de geração em geração.

Assim, o dispositivo de análise Nó-Problemático revelou-se como uma grelha clínica e heuristicamente útil, porque permitiu não só identificar os níveis centrais de sofrimento acumulado nas trajetórias de vida dos participantes, como também identificar a relevância subjetiva dos níveis de análise na perspetiva geracional.

A sua aplicação pode oferecer ao profissional de saúde mental a possibilidade de co-construir com o sujeito um projeto terapêutico mais adequado, identificar a porta de entrada do tratamento a realizar conjuntamente com os dispositivos médicos e terapêuticos disponíveis, como sejam a psicoterapia individual, grupal, do casal e/ou da família, ou ainda os tratamentos residenciais quando se despistam um acumular de fragilidades sociais, familiares, e individuais, que inscrevem uma patologia mais severa ou comorbidade associada.

No que diz respeito à Esperança e à escala de Snyder et al. (1991), esta contempla originalmente oito indicadores de esperança e quatro distratores, relacionados com auto-percepções de saúde. Com o objectivo de identificar dimensões latentes na escala, os oito indicadores foram submetidos a uma análise exploratória de componentes principais, com rotação Varimax (KMO = 0.683, p < .001), cuja matriz rodada apresenta a seguinte configuração (Tabela 3).

Tabela 3

Resultados da análise exploratória

Itens de esperança Componentes
1 2 3
Tenho sido bastante bem sucedido na vida .831a .100 .060
As minhas experiências passadas preparam-me bem para o futuro .790 .099 .124
Mesmo que outros me desencorajem posso resolver problemas .725 -.143 .303
Persigo energicamente objectivos .614 .401 -.010
Tenho consciência dos meus próprios objectivos .046 .840 .042
Existem muitas maneiras de ultrapassar problemas .103 .797 .202
Consigo pensar em maneiras de sair de situações complicadas .006 .105 .875
Consigo pensar em maneira de obter coisas mais importantes na vida .348 .151 .744
Variância explicada 29.4% 19.7% 18.4%

aOs valores a negrito representam a maior carga fatorial.

Com base nos indicadores mais correlacionados com a componente, construímos três dimensões através da média aritmética dos mesmos, a saber:

  1. Autodeterminado: (Bem sucedido na vida + Experiências passadas preparam futuro + Posso resolver problemas + Persigo objetivos; Alfa de Cronbach = 0.758);

  2. Estratega: (Consciência dos objectivos próprios + ultrapassar problemas; Alfa de Cronbach = 0.612);

  3. Iniciativa: (Sair de situações complicadas + Obter coisas mais importantes na vida; Alfa de Cronbach = 0.622).

Foi também criada, de acordo com a proposta de Snyder et al. (1991), uma escala de Esperança Global que integra os oito indicadores (Alpha de Cronbach = 0.743). Os resultados das quatro sub-escalas de Esperança consequentes da proposta de Snyder et al. (1991), apresentam a seguinte distribuição média entre os tóxico-dependentes e os irmãos (Tabela 4).

Tabela 4

Resultados da Análise Estatística

Sub-escalas de esperança Tóxico-dependente
Irmão
Média Desvio-padrão   Média Desvio-padrão
Esperança global      3.2     .42     3.3     .33
Autodeterminação      3.0     .53     3.2     .40
Estratégia      3.4     .67     3.6     .43
Iniciativa      3.3     .57     3.2     .49

Note. Escala 0 = totalmente falso; 4 = totalmente verdadeiro.

Concluímos pois, que apenas se verificam diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos na Esperança Global (t(57) = 2.842; p < .05). A Autodeterminação (t(57) = -.920; p > .05), Estratégia (t(57) = .306; p > .05) e Iniciativa (t(57) = -1.162; p > .05), não apresentam diferenças estatisticamente significativas entre tóxico-dependentes e irmãos.

Discussão [TOP]

Com efeito, verificámos que o conceito de Nós-Problemáticos tornou-se operacional e deu-nos a possibilidade de o denominar de trans-geracional, porque permitiu-nos uma análise intergeracional e transgeracional das narrativas e da subjetivação dos percursos de vida dos participantes. Este revelou-se como um complexo emocional que filtra e analisa os acontecimentos de vida, as subjetivações sobre as dinâmicas familiares e sociais, na perspetiva de identificar os sentimentos, os processos de identificação e de diferenciação do self, e os vínculos intersubjetivos vulneráveis, geracionais, através da dimensão crítica das polaridades semânticas autonomia/dependência, união/desunião, liberdade/submissão e doente/saudável (Eiguer, 1996, 2008; Neto, 2003, 2006; Torres & Lito, 2008; Ugazio, 2001).

A partir do Nó-Problemático Familiar, verificámos que no grupo dos tóxico-dependentes o complexo familiar revelou-se-lhes vulnerável, em relação ao casal conjugal e parental. Os tóxico-dependentes exprimiram o sentimento de falta e de falha identitária nas organizações e dinâmicas familiares nas suas relações com os pais. O continente familiar e psíquico caracterizou-se por ser poroso (Benghozi, 2006), transparente (Lito, 2010a), com interiorização deficitária dos limites geracionais, com estilos educativos intrusivos, rígidos, e autoritários (Baumrind, 1971; Montandon, 2005). Podemos, por exemplo, referir que 15 participantes, revelaram que as mães apresentavam quadros de depressão e, pelo menos, 10 pais foram descritos como tendo problemáticas de alcoolismo, dois com dependência do jogo e um com dependência do sexo, o que demonstra o contexto vulnerável, adoecido e de perturbação narcísico-perversa do funcionamento das famílias dos participantes.

Identificámos também que os processos adolescentis inscritos nestas dinâmicas familiares e sociais se desenvolveram em pactos denegativos (Kaës, 2007), que co-evoluíram em alianças inconscientes e outras conscientes entre os irmãos. O tóxico-dependente desenvolveu-se com a expetativa de “ser o herói” enquanto que o irmão se revelou imerso na trama relacional familiar, surgindo como sendo a testemunha, o bom, a vítima, o protetor da família, colocando-se em posições rígidas manicaístas, apoiado em padrões de comunicação patogénicos de afirmação crítica.

Nos irmãos que revelaram maior incidência do Nó-Problemático Social, registámos uma fraca distinção entre as leis familiares e as leis sociais, e foi notória a sua crítica face aos limites geracionais da vida familiar, ficando estes esbatidos entre o público e o privado. Evidenciaram o impacto do estigma do consumo das drogas no contexto social. Ficaram também comprometidos no seu processo de autonomia, retidos e à mercê de projeções parentais violentas e humilhantes no grupo familiar. Cresceram envergonhados pelas condutas aditivas familiares, também em lutos adiados, apresentando nas suas contra atitudes, a herança dum ideal familiar omnipotente (Benghozi, 1994, 2006; Decherf, 2006; Fadhlaoui & Lapierre, 2006).

No grupo dos tóxico-dependentes, verificámos que o complexo emocional, no que diz respeito ao Nó-Problemático Individual, caracterizou-se pelo acumular de objetos psíquicos não elaborados. Ciccone (2003) chamou-lhe de invasão imagóica de acontecimentos de vida não transformados, que se repercutiram nos processos de filiação e de afiliação problemáticos e estagnados. Ficaram fixados ao sofrimento do modelo parental, pela identificação projetiva patológica, por processos de transmissão traumática do objeto transgeracional que repudiavam na geração precedente. Contendo fantasmas, estes vieram intervir nas dificuldades de resolução edipiana e, na incorporação da lei, na identificação e diferenciação do self (Bowen, 1991), bem como no processo narcísico e vincular intersubjetivo de filiação que sustenta a harmonia do aparelho psíquico familiar (Ruffiot, 1981). Tornaram-se nos interlocutores de vínculos destrutivos e tirânicos deste aparelho grupal (Decherf & Ruffiot, 1996), ocupando uma posição fundamental, endogâmica e intransitiva nos circuitos recursivos inextricáveis familiares, nos dilemas separação/castração e autonomia/dependência (Ugazio, 2001).

Assim, os tóxico-dependentes ficaram retidos e encapsulados na bolha do tempo (Ausloos, 1995, 2009; Lito, 2010a; Zimbardo & Boyd, 2008), em ciclos viciosos de lutos patológicos, de revolta e denúncia de conflitos geracionais, fechados nos segredos familiares, em comunicações equivocadas, ofuscados, como representantes do porta-sintoma na função fórica, porta-vozes de ilusões, de missões ou lealdades inconscientes familiares (Boszormenyi-Nagy, 1991; Kaës, 2007; Stierlin, 1977, 2007). Revelaram masoquismo e nostalgia no tempo perdido, mantiveram-se numa posição alienante e perversa no interior das dinâmicas familiares (Eiguer, 1996) que sustentaram e alimentaram o seu processo de tóxico-dependência.

Nos irmãos, verificámos através da análise de conteúdo que estes desenvolveram um processo de filiação e afiliação tendencialmente de co-dependência (Zampieri, 2004). Ficaram inscritos em processos fraternais de parentalização (Boszormenyi-Nagy, 1991) e/ou de pseudocooperação (Angel & Angel, 2005). Verificámos ainda, que os conflitos, a tensão, a descontinuidade e a instabilidade nos contextos de vida social das famílias (e.g. o 25 de abril de 1974, a guerra colonial, a imigração e a emigração) foram também referenciados como perturbadores nos seus processos adolescentis. Referiram dificuldades nos processos de socialização, nomeadamente na interiorização dos referentes simbólicos que interferiram no legado fraternal e filiativo, bem como nos processos de aculturação (Lemaire, 2009; Mijolla, 2001). Contudo, ainda que tenham vivido adolescências conturbadas e que tenham realizado a experimentação de substâncias psicotrópicas, não se fixaram a elas porque perceberam, pela experiência dos irmãos tóxico-dependentes, o risco da dependência física (Brody, 1998). Viveram diferentemente a relação dinâmica com os progenitores, aproveitando o sobre-investimento narcísico parental nos irmãos problemáticos, para tentarem escapar ao adoecer do grupo familiar. Procuraram sair de casa “fugindo”, investindo nas questões escolares e profissionais e nas relações sociais, racionalizando e sublimando a conflitualidade familiar. Redirecionaram os seus estilos de vida para a atividade desportiva e para a inserção em grupos de pares diferentes daqueles escolhidos pelos irmãos tóxico-dependentes que consumiam. Neste processo de ataque-fuga ao contexto familiar e de crítica às práticas parentais (Bion, 2006), tornaram-se tendencialmente adolescentes-testemunhas (Angel & Angel, 2005; Boszormenyi-Nagy, 1991). No entanto, na tentativa de “fugirem” à sua família de origem, reproduziram e repetiram inconscientemente nas suas afiliações, nas escolhas dos parceiros, sujeitos com índices de dependência emocional e ou de co-dependência (Zampieri, 2004). Percebeu-se, através da análise de conteúdo, que as raparigas casaram precocemente, algumas vezes com parceiros que percebemos com problemas de tóxico-dependência não assumidos. Pelo contrário, os rapazes mantiveram-se solteiros demonstrando dificuldade em realizar compromissos amorosos, ou ainda, permaneceram a coabitar com a família de origem.

Estes irmãos viveram submetidos à violência do fantasma da destruição e à vergonha do estigma social da droga e ao risco de desunião familiar, resultantes dos problemas associados aos consumos problemáticos no seio familiar. Viveram também sujeitos à tensão proveniente de ruturas (acidentais ou naturais), à impossibilidade de viverem equilibradamente a diferenciação e a individuação (Bowen, 1991; Mahler, 1981), realizando um processo de separação e de autonomia apenas parcial. Acabaram por revelar outras dependências com problemáticas associadas, tais como doenças psicossomáticas (asma, psoríase, etc.) ou, como referimos anteriormente, escolha de companheiros com condutas aditivas escamoteadas, quadros de dependência emocional e de co-dependência.

Assim, o significante do processo tornar-se tóxico-dependente revelou-se na diferença de conotação entre irmãos através das posições diferenciadas e clivadas no interior do grupo familiar que cada um ocupa ou ocupou. O excluído, o desviante, o culpado assumido refere-se à definição que se liga ao tóxico-dependente. O irmão assume-se como a vítima, o bom ou a testemunha, que indica a existência de défices do narcisismo grupal, familiar e individual. As dinâmicas na fratria oscilaram entre a cooperação/fusão ou a competição/inveja.

O grupo familiar está, pois, afetado pela vulnerabilidade narcísica e depressiva, bem como pela perversidade dos vínculos intersubjetivos de respeito, de responsabilidade e, consequentemente, de reconhecimento e de reciprocidade (Eiguer, 2008) que sustentam processos fechados de dependência mútua no grupo familiar. Podemos, assim, incluir estas famílias na nossa conceção das Famílias de Vidro (Lito, 2010a), que se caracterizam pela existência de um tempo parado no seu ciclo evolutivo.

A Esperança global enquanto atitude e forma de estar na vida, agente de mudança e de expectativa positiva face aos problemas e ao futuro, apresenta-se como um elemento diferenciador entre os tóxico-dependentes e os seus irmãos, ainda que ambos estejam imersos em organizadores familiares depressivos e vulneráveis. Consideramos que essas diferenças se relacionam com as posições subjectivas de avaliação do uso/abuso de substâncias psicoativas, bem como, com as iniciativas e estratégias que cada sujeito utilizou para enfrentar as dificuldades, tendo em conta uma perspetiva de esperança face ao futuro (Snyder et al., 1991).

É necessário valorizar as abordagens psicoterapêuticas individuais, grupais e/ou familiares, que auxiliem a auto-reflexidade dos sujeitos, na nomeação das dificuldades psicológicas dos tóxico-dependentes e seus irmãos, no sentido da sua autodeterminação para atingir objetivos positivos. A clarificação dos vários Nós-Problemáticos transgeracionais vem promover a singularidade e a autonomia digna, nos percursos de vida dos sujeitos, bem como, a resolução de conflitos grupais e familiares.

O tratamento psicológico integrado vai procurar romper com os sofrimentos silenciados e arrastados, que se manifestaram nas condutas aditivas, nas pseudo-identidades e/ou desidentificações, que tendem a repetir-se geracionalmente.

Notas [TOP]

i) Apesar de na literatura científica se utilizar o termo “consumidores problemáticos”, adotamos a terminologia tóxico-dependência escrita com duas palavras separadas por um hífen, porque muito embora o próprio acordo ortográfico de 1990 o contrarie, a decomposição do termo tem a ver com a nossa concetualização clínico-teórica. Trata-se de um neologismo que se prende com a nossa experiência clínica de tratamento destes pacientes. O processo identitário é provisório, temporário ou não, que inscreve um percurso singular e idiossincrático passível de transformação.

Financiamento [TOP]

Os autores não têm financiamento a declarar.

Conflito de Interesses [TOP]

Os autores declaram que não existem quaisquer conflitos de interesse.

Agradecimentos [TOP]

Agradecemos a todas as instituições e colegas que acreditaram no nosso projecto de investigação e connosco colaboraram. Um reconhecimento especial ás famílias e pessoas que voluntariamente se empenharam em partilhar os aspectos mais privados das suas histórias de vida.

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