Empirical Articles

Bullying Genérico e Homofóbico no Contexto Escolar

Generic and Homophobic Bullying in School Context

Paulo Costaa, José Pintob, Henrique Pereira*b, Beatriz Pereiraa

Resumo

Objetivo: Tendo em conta a reduzida literatura sobre o bullying homofóbico em Portugal, os objetivos deste estudo foram descrever a sua prevalência, comparativamente ao bullying genérico, na perspetiva das vítimas; comparar as diferenças de género e compreender a relação entre o bullying homofóbico e os sentimentos de infelicidade e humilhação e a denúncia por parte das vítimas.

Método: Participaram 171 (7º ano), 160 (8º) e 156 (9º) alunos (52.0% feminino e 48.0% masculino), entre os 11 e os 17 anos, aos quais foi aplicado um questionário de autorrelato em formato digital, avaliando-se: género, vitimação, sentimentos infelicidade/humilhação e denúncia.

Resultados: Um total de 33.0% dos alunos foram vítimas de bullying genérico, maioritariamente no 8º ano. Rapazes e raparigas registaram índices de vitimação semelhantes. Quanto ao bullying homofóbico, a prevalência aumentou do 7º para o 9º ano e os rapazes apresentaram maior frequência de vitimação comparativamente às raparigas, havendo diferenças estatisticamente significativas no 9º ano. À medida que as situações de vitimação homofóbica aumentam, maior foi o sentimento de infelicidade e humilhação nas vítimas e maior a denúncia.

Conclusão: Estes dados reforçam a necessidade de ações e programas de prevenção nas escolas, enquadrados numa perspetiva sistémica, privilegiando a intervenção dos observadores de situações de bullying.

Palavras-Chave: bullying, crianças, longitudinal, vítimas, género, homofobia

Abstract

Aim: Given the little scientific information about homophobic bullying in Portugal, the purpose of this study was to assess its prevalence, in comparison to generic bullying, from the perspective of the victims; to compare differences related to gender and to understand the association between homophobic bullying and feelings of unhappiness and humiliation and victim’s reporting.

Method: A total of 171 (7th grade), 160 (8th) and 156 (9th) students (52.0% female/48.0% male), between 11 and 17 years old, completed a self-report questionnaire in digital format, assessing: gender, victimization, feelings of unhappiness and humiliation and victim’s reporting.

Results: Of these students 33.0% were victims of bullying, mostly in the 8th grade. Boys and girls were equally likely to be victims. On the other hand, homophobic bullying situations in school increased from the 7th to the 9th grade and male students were more frequently bullied than females, showing statistically significant differences in the 9th grade. The more frequent the homophobic bullying episodes became, the greater the feelings of unhappiness and humiliation and more frequent the reporting.

Conclusion: These findings strengthen the need to promote actions and programs aiming at prevention in schools, from a systemic perspective, emphasizing the intervention of observers of bullying episodes.

Keywords: bullying, children, longitudinal, victims, gender, homophobia

Psychology, Community & Health, 2015, Vol. 4(3), doi:10.5964/pch.v4i3.122

Received: 2014-10-14. Accepted: 2015-11-04. Published (VoR): 2015-11-27.

Handling Editor: Cristina Godinho, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Lisbon, Portugal

*Corresponding author at: Departamento de Ciências Sociais e Humanas, Universidade da Beira Interior, Estrada do Sineiro, s/n, 6200-209, Covilhã, Portugal. E-mail: hpereira@ubi.pt

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Introdução [TOP]

Num período que corresponde a não mais do que três décadas, o bullying genérico consolidou-se como um fenómeno inseparável da vida das escolas (Costa, Farenzena, Simões, & Pereira, 2013). O termo bullying refere-se à prática do abuso sistemático de poder entre pares (Rigby, 2002), provocado por um individuo ou mais, perante uma ou mais vítimas, através de um processo de agressão intencional e repetido (Olweus, 1993).

A natureza do bullying remete para múltiplas variáveis, em que a escola assume preponderância, aparecendo como instituição com poucas respostas perante os padrões culturais, onde a violência parece sujeita à inevitabilidade do crescimento das crianças, e o peso da tradição nas estratégias pedagógicas (Costa et al., 2013). Ao nível das motivações pessoais do/a agressor/a, o bullying pode ser físico, verbal, sexual, de exclusão, por ameaça e/ou por via digital – cyberbullying.

A literatura indica que os episódios de bullying diminuem à medida que os alunos vão sendo mais velhos (Barrio, Martín, Montero, Fernández, & Gutiérrez, 2001; Berger, 2007; Eslea & Rees, 2001; Martins, 2009; Olweus, 1993; Ravens-Sieberer, Kökönyei, & Thomas, 2004; Whitney & Smith, 1993), atingindo o seu auge aos 13 anos de idade, 8º ano de escolaridade (Carvalhosa & Matos, 2005; Eslea & Rees, 2001; Espelage & Holt, 2001; Fernandes & Seixas, 2012; Haynie et al., 2001; Karin-Natvig, Albrektsen, & Qvarnstrøm, 2001; Nansel et al., 2001).

O bullying homofóbico é mais desconhecido e alvo de menos intervenção, não só na escola, como ao nível da investigação (Costa & Davies, 2012; Poteat & Espelage, 2005, 2007). Configura comportamentos e/ou atitudes, explícitos ou não, que reforçam atitudes negativas em relação às pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transgénero (LGBT) – homonegativismo (Pereira, 2013) – ou relativamente a pessoas cuja maneira de se expressar – expressão de género – é diferente do estereótipo de masculinidade e de feminilidade, geralmente percebidas como sendo gays e lésbicas (Meyer, 2010; O’Higgins-Norman, 2008; Poteat & Espelage, 2005).

A natureza desta forma de vitimação é complexa, estando relacionada com o desenvolvimento pubertário e com a composição heterossexual do grupo de pares (McMaster, Connolly, Pepler, & Craig, 2002), mas também com a homofobia. Esta traduz-se no preconceito face a pessoas LGBT, fundado em mitos e crenças incorretas e expresso no medo irracional que pessoas heterossexuais manifestam em estar próximo de pessoas homossexuais (Carneiro, 2009) ou não-heterossexuais (Oliveira, Pereira, Costa, & Nogueira, 2010), acompanhado de sentimentos de ansiedade, raiva, aversão e/ou desconforto (Pereira, 2013).

De acordo com a literatura, o ambiente escolar atual é tendencialmente homofóbico e heterossexista – princípio de que a heterossexualidade é a única prática sexual aceitável numa sociedade (Pereira, 2013) – visível, por exemplo, nos currículos escolares e nas atividades extracurriculares (Meyer, 2010). A homofobia associada ao bullying está igualmente relacionada com os estereótipos de género (Costa & Davies, 2012; O’Higgins-Norman, 2008), profundamente enraizados na cultura portuguesa, particularmente no masculino, em que os padrões são mais rigorosos (Meyer, 2010). O género representa um dos fatores mais fortemente relacionados com o bullying homofóbico e sua perpetuação na escola, onde os rapazes apresentam uma maior probabilidade de ser vítimas do que as raparigas (António, Pinto, Pereira, Farcas, & Moleiro, 2012; Costa & Davies, 2012; Hong & Garbarino, 2012; Toomey, Ryan, Diaz, Card, & Russell, 2013).

A forma pela qual os comportamentos de agressão e/ou de intimidação (Costa et al., 2013) de natureza homofóbica se expressam é, na maioria das vezes, verbal, através dos insultos anti-gay («Isso é muito gay» ou «Não sejas maricas!»), piadas anti-gay e atitudes intencionais de gozo relativamente a alunos real ou aparentemente gays e lésbicas (por exemplo, imitar os gestos de um rapaz efeminado para provocar riso nos colegas) (António et al., 2012; Blais, Gervais, & Hebert, 2014; Bullock, 2002; Costa & Davies, 2012; Juvonen, Graham, & Schuster, 2003; Meyer, 2010).

Os resultados de um estudo realizado nos EUA, com uma amostra constituída por 251 alunos, pertencentes ao género masculino, do 9º ao 11º ano, revelaram que 26% dos inquiridos relataram ter sido vitimados pelo facto de lhes terem chamado «gay». Os alunos afirmam ter sofrido uma enorme angústia psicológica, realçando o facto de sentirem que foram vítimas de experiências mais negativas, comparativamente a outros alunos que foram vítimas de bullying por outros motivos (Swearer, Turner, Givens, & Pollack, 2008). O estudo HBSC/2002 realizado em Portugal revelou que 14,3% das crianças e/ou jovens foram vítimas de comentários, gestos ordinários e/ou piadas sexuais (Matos, Negreiros, Simões, & Gaspar, 2009). Num outro estudo nacional, realizado em Portalegre, observou-se que 5,4% dos alunos foram intimidados com insultos de carácter sexual (Martins, 2009).

Muitos alunos apontam o elevado potencial de danos que pode ser provocado pelo bullying homofóbico na escola, não só em relação às vítimas LGBT, mas também a outras que não se enquadram no estereótipo de género (Meyer, 2010). O impacto desta forma de agressão e de intimidação pode resultar em problemas de saúde, comportamento violento, alcoolismo e consumo de substâncias psicoativas (Zinner, Conelea, Glew, Woods, & Budman, 2012). Ao nível do género (Poteat & Espelage, 2007) mostram que, para os rapazes, ser vítima de bullying homofóbico pode predizer fortes sintomas de depressão, ansiedade, stresse e diminuição do sentimento de ligação à instituição escolar, não sendo uma situação tão ameaçadora para o self nas raparigas. Relativamente às vítimas gays e lésbicas, observou-se que 40% das vítimas tentaram o suicídio (Adams, Cox, & Dunstan, 2004).

A presente investigação de natureza empírica decorre da necessidade de realização de estudos longitudinais que permitam perceber as tendências/evolução (Matos et al., 2009) associadas ao bullying genérico e homofóbico em contexto escolar. Pretende-se contribuir para o aprofundamento da compreensão deste fenómeno, do seu impacto nas vítimas e, tendo em conta que a vitimação de natureza sexual tende a aumentar no período da adolescência (McMaster et al., 2002), fornecer resultados que sirvam de base a intervenções de âmbito psicossocial, especialmente na área da prevenção.

Assim, os objetivos do presente estudo são: (a) descrever a prevalência das situações de bullying genérico e de bullying homofóbico, na perspetiva das vítimas; (b) comparar as diferenças associadas ao género; (c) caracterizar o impacto do bullying homofóbico nas vítimas, ao nível dos sentimentos de infelicidade/ humilhação e da denúncia.

Método [TOP]

Participantes [TOP]

O presente estudo foi realizado numa escola pública de um agrupamento de escolas do ensino básico da cidade de Braga, no norte de Portugal, durante três anos consecutivos. Distribuídos por 9 grupos/turmas, o número de participantes manteve-se constante, exceto alguns casos de alunos que ficaram retidos ou que estavam ausentes nos períodos de recolha de dados. A amplitude das idades dos participantes oscilou entre os 11 e os 17 anos, apresentando um média global de idades de 13.5 e com um desvio padrão de 1.1. A amostra do estudo, cujos dados se encontram na Tabela 1, coincide com o total dos alunos dos respetivos anos escolares.

Tabela 1

Caraterização sociodemográfica dos participantes

Ano letivo Ano escolar Idade (anos)
DP Género feminino
Género masculino
Total
média mín-máx n % n % n %
2010-2011 12.5 11-14 0.7 92 53.8 79 46.2 171 100.0
2011-2012 13.8 13-17 0.8 80 50.0 80 50.0 160 100.0
2012-2013 14.4 14-18 0.7 78 50.0 78 50.0 156 100.0

Instrumento [TOP]

Como instrumento de recolha de dados, adotou-se o questionário «Bullying – A agressividade entre crianças na escola» (Olweus, 1989), adaptado e validado para a população escholar, e revisto para este estudo em versão digital (Costa et al., 2013), autorizado pela DGIDC com o número de registo 0163700001.

O instrumento está organizado em quatro secções, sendo a primeira sobre os dados sociodemográficos, a segunda incidindo na identificação de situações de vitimação (perspetiva da vítima), a terceira na agressão (perspetiva do agressor) e a quarta relativa às perceções sobre o clima escolar (espaços, relações, segurança, entre outros) – consultar, por favor, em https://www.surveymonkey.com/s/JM95WR9.

Relativamente às formas de vitimação de bullying genérico (“Quantas vezes aconteceu baterem-te, empurrarem-te, falarem mal de ti, meterem-te medo, insultarem-te, enviarem-te ou divulgarem mensagens/imagens porque te queriam fazer mal ou por não se importarem contigo”), foi apresentada aos inquiridos a questão «Como e quantas vezes te fizeram mal, nas seguintes situações, este período letivo (2 últimos meses)?». Foi-lhes questionado um total de 18 itens associados a esta variável. Para efeito do presente estudo foi considerado como item de resposta «Insultaram-me com nomes ou frases de natureza sexual (maricas, gay, bicha, florzinha, maria-macho, fufa, lésbica, entre outros)». No que diz respeito aos sentimentos de infelicidade e humilhação das vítimas, foi pedido aos inquiridos que respondessem à questão «Diz como te sentes quando um rapaz ou rapariga te faz mal intencionalmente e de forma continuada (várias vezes)?». Relativamente à denúncia por parte das vítimas, os inquiridos responderam à questão «Disseste a alguém que te fizeram mal na escola?».

Procedimentos [TOP]

Os alunos manifestaram o consentimento informado em participar nas diversas fases do estudo, com o respetivo consentimento dos pais/encarregados de educação. As informações pessoais dos alunos foram protegidas, bem como foi garantido o anonimato dos participantes. O instrumento foi administrado pelos professores, que receberam orientação prévia sobre os procedimentos de aplicação e foi respondido pelos alunos durante o período normal de aula.

Para efeitos de análise e tratamento estatístico, os dados recolhidos foram submetidos a processamento eletrónico, utilizando-se a versão 20 do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). Depois de uma análise descritiva, procuramos encontrar diferenças entre os géneros, com recurso ao teste Qui-quadrado (χ2). Procedeu-se, por fim, às correlações entre o bullying homofóbico e variáveis psicológicas do questionário, averiguando o respetivo Coeficiente de Pearson (r).

Resultados [TOP]

Relativamente à evolução da vitimação por bullying genérico (ver Tabela 2) ao longo dos três anos, observa-se que em termos globais 35.0% dos alunos referem ter sido vítimas de bullying, constituindo o 8º ano (13 anos) o que registou maior prevalência (41.9%), comparativamente aos restantes anos que constituíram o estudo, respetivamente 31.0% (7º ano) e 32.1% (9º ano), não havendo diferenças estatisticamente significativas entre os três anos (χ2 = 5.13, p = .08).

Tabela 2

Descrição do bullying genérico ao longo de 3 anos

Ano escolar Não vítimas
Vítimas
Total
χ2 gl p
n % n % n %
7º ano 118 69.0 53 31.0 171 100.0 5.13 2 .08
8º ano 93 58.1 67 41.9 160 100.0
9º ano 106 67.9 50 32.1 156 100.0

Tendência similar é registada ao nível do género (ver Tabela 3), visto que ambos manifestam maior prevalência no 8º ano (13 anos). Contudo, o masculino registou maiores índices de vitimação ao longo dos três anos, com exceção do 7º ano (12 anos). Verifica-se quer nos rapazes, quer nas raparigas, um aumento dos índices de vitimação a partir do 7º ano até ao 8º, onde se observa um pico de situações de bullying genérico, que decresce no 9º ano. Foram obtidas diferenças estatisticamente significativas relativamente ao género, no 9º ano de escolaridade (χ2 = 4.24, p = .04).

Tabela 3

Descrição do bullying genérico associado ao género ao longo de 3 anos

Ano escolar Feminino
Masculino
χ2 gl p
Não vítimas
Vítimas
Total
Não vítimas
Vítimas
Total
n % n % n % n % n % n %
7º ano 64 69.6 28 30.4 92 100.0 54 68.4 25 31.6 79 100.0 0.03 1 .86
8º ano 49 61.2 31 38.8 80 100.0 44 55.0 36 45.0 80 100.0 0.64 1 .42
9º ano 59 75.6 19 24.4 78 100.0 47 60.3 31 39.7 78 100.0 4.24 1 .04

Os resultados em relação às situações de bullying homofóbico (ver Tabela 4) manifestam, ao contrário do bullying genérico, uma tendência ascendente ao longo dos anos de escolaridade, passando de 2.3% (7º ano) para 7.1% (9º ano). No entanto, as diferenças entre os anos, no que respeita à prevalência de bullying homofóbico, não são estatisticamente significativas (χ2 = 4.57, p = .1).

Tabela 4

Descrição do bullying homofóbico ao longo de 3 anos

Ano escolar Não vítimas
Vítimas
Total
χ2 gl p
n % n % n %
7º ano 167 97.7 4 2.3 171 100.0 4.57 2 .10
8º ano 154 96.2 6 3.8 160 100.0
9º ano 145 92.9 11 7.1 156 100.0

Ao nível do género (ver Tabela 5), observa-se um aumento das situações de vitimação de natureza homofóbica, especialmente associadas aos alunos do género masculino, registando-se diferenças estatisticamente significativas no 9º ano de escolaridade (χ2 = 4.79, p = .03).

Tabela 5

Descrição do bullying homofóbico associado ao género ao longo de 3 anos

Ano escolar Feminino
Masculino
χ2 gl p
Não vítimas
Vítimas
Total
Não vítimas
Vítimas
Total
n % n % n % n % n % n %
7º ano 91 98.9 1 1.1 92 100.0 76 96.2 3 3.8 79 100.0 1.37 1 .24
8º ano 79 98.8 1 1.2 80 100.0 75 93.8 5 6.2 80 100.0 2.77 1 .10
9º ano 76 97.4 2 2.6 78 100.0 69 88.5 9 11.5 78 100.0 4.79 1 .03

Relativamente à análise das correlações (ver Tabela 6), os resultados mostram que a vitimação homofóbica está fortemente associada a sentimentos de infelicidade e humilhação (r = .44, p < .001). No que respeita à denúncia de uma situação vivenciada de bullying homofóbico, há uma relação positiva entre ambas (r = .31, p < .001) que, apesar de ser baixa, significa que quanto mais situações de vitimação se registam, maior é a denúncia por parte das vítimas.

Tabela 6

Correlações da vitimação homofóbica com os sentimentos da vítima e a denúncia

Infelicidade e humilhação
Denúncia da vitimação
r p n r p n
Vítimas de bullying homofóbico .44 .00 487 .31 .00 487

Importa referir que um total de 15 alunos (11 do 7º para o 8º ano e 4 do 8º para o 9º) realizaram drop-out da investigação, por motivos de retenção escolar, transferência de escola e/ou ausência na aula em que se procedeu à recolha de dados.

Discussão [TOP]

Tendo em consideração os resultados obtidos, este estudo vem colmatar a escassez de informação relativa ao fenómeno do bullying homofóbico, comparativamente ao bullying genérico, no contexto escolar, não só quanto à sua prevalência, como também ao nível da compreensão e do impacto na vítima. Os resultados fundamentam, ainda, ações de prevenção dirigidas a toda a comunidade escolar, com o objetivo major de promover a diversidade sexual e familiar nas escolas.

De acordo com os dados obtidos, a indicação de que cerca de um terço da população inquirida foi vítima de comportamentos de bullying genérico constitui uma elevada prevalência, corroborada por diversos estudos, com amostras semelhantes às do presente estudo (Cassidy, 2009; Due & Holstein, 2008; Eslea et al., 2003; Forero, McLellan, Rissel, & Bauman, 1999). As referidas frequências apresentam uma evolução ascendente do 7º para o 8º ano, decrescendo do 8º para o 9º ano (embora com valores semelhantes aos observados no 7º ano), contrariando alguns autores, que sugerem que a vitimação diminui com o aumento da idade/escolaridade (Barrio et al., 2001; Berger, 2007; Eslea & Rees, 2001; Martins, 2009; Olweus, 1993; Ravens-Sieberer et al., 2004; Whitney & Smith, 1993).

Consideramos que o facto de os grupos/turmas participantes no estudo se terem mantido constantes ao longo de três anos consecutivos pode ter contribuído para que as prevalências registadas apontem para uma estabilização da vitimação, ao longo da escolaridade considerada (exceto no 8º ano). Este dado corrobora uma das características inerentes ao próprio conceito de bullying, nomeadamente, o carácter contínuo e sistemático da vitimação. No entanto, o 8º ano de escolaridade, que corresponde em geral à idade dos 13 anos, constituiu o pico máximo do número de situações de vitimação, o que vai ao encontro dos resultados obtidos em outros estudos (Carvalhosa & Matos, 2005; Eslea & Rees, 2001; Fernandes & Seixas, 2012; Haynie et al., 2001; Karin-Natvig et al., 2001; Nansel et al., 2001). Este resultado, no nosso entender, pode estar relacionado com as transformações biológicas e psicológicas inerentes ao processo da puberdade, coincidindo com a fase inicial da adolescência, em que os pares assumem um papel preponderante no desenvolvimento da criança/jovem.

Relativamente ao género, os resultados encontrados no presente estudo seguem a linha de investigações que sugerem que rapazes e raparigas são de forma semelhante vítimas de bullying genérico (Costa et al., 2013; Díaz-Aguado, 2004; Martins, 2009; Sapouna, 2008; Viljoen, O'Neill, & Sidhu, 2005). Considerando que a explicação para o fenómeno da diferença de sexos radicar no processo de socialização e em aspetos culturais associados ao género, admite-se como provável que essas diferenças tendam a esbater-se com o tempo (Martins, 2009). Nesse sentido, os resultados da presente investigação espelham a perspetiva de que ser-se vítima de bullying genérico é igualmente possível nos rapazes e raparigas, motivo pelo qual apenas foram encontradas diferenças estatisticamente significativas associadas ao género no último ano escolar do 3º ciclo (9º ano).

Quanto ao bullying de natureza homofóbica, o estudo revela que a prevalência média registada ao longo dos três anos foi de 4.3%, sendo similar à obtida por Martins (2009). Em termos evolutivos, o bullying homofóbico revelou uma tendência crescente ao longo da escolaridade, isto é, a vitimação de natureza homofóbica aumentou com a idade. A este propósito, outros autores (McMaster et al., 2002) sugerem que o assédio sexual ou esta forma específica de bullying (Pellegrini, 2002) é mais tardio, tendendo a aumentar na adolescência e encontrando-se dessa forma relacionado com o desenvolvimento pubertário.

Os dados apontam no sentido de haver maiores níveis de vitimação de natureza homofóbica no género masculino, comparativamente ao feminino, o que vai ao encontro de vários estudos desenvolvidos (António et al., 2012; Costa & Davies, 2012; Hong & Garbarino, 2012; Meyer, 2010; Toomey et al., 2013), tendo sido observado neste estudo uma diferença estatisticamente significativa no 9º ano de escolaridade.

Não apresentando elevada prevalência, as situações de vitimação homofóbica têm, contudo, efeitos psicológicos graves na vítima, tendo-se verificado que esta se sente mais infeliz e mais humilhada à medida que as situações de bullying são mais frequentes (r = .4). Este resultado é consonante com a literatura, que alerta para o comprometimento do desenvolvimento e da saúde global das vítimas (Adams et al., 2004; Meyer, 2010; Swearer et al., 2008; Zinner et al., 2012), para a angústia psicológica (Swearer et al., 2008), para os sintomas de depressão, ansiedade, stresse e para a diminuição do vínculo à escola (Poteat & Espelage, 2007).

Apesar de haver uma relação positiva entre a vitimação por bullying homofóbico e a denúncia, esta é baixa (r = .3), o que pode significar que quanto mais frequentes são as situações de bullying homofóbico, a probabilidade de a vítima denunciar aumenta também, mas sugerimos que nem sempre isso possa acontecer. Consideramos que, pelo facto de estar associada à intimidade das vítimas, esta forma de vitimação faça com que estas sintam vergonha e receio em pedir ajuda aos pares e/ou adultos da sua confiança, dificultando a denúncia e a intervenção eficaz.

As principais limitações deste estudo foram o número total reduzido de alunos na amostra, bem como ter sido estudado apenas um contexto escolar. Isto pode ter diminuído o poder dos testes estatísticos aplicados, não permitindo identificar diferenças estatisticamente significativas, ainda que existam na realidade. Nesse sentido, sugerimos investigações futuras, de metodologia quantitativa, a realizar-se em diversos contextos do país e onde a amostra seja mais representativa. A finalidade será avaliar a transversalidade do bullying homofóbico no contexto escolar em Portugal.

Será também pertinente averiguar em estudos futuros longitudinais se os participantes que dizem ser vítimas de bullying são os mesmos ao longo do tempo. Compreender a relação preditiva entre o bullying homofóbico e variáveis como o género, através da metodologia quantitativa, é outra sugestão de investigação cuja finalidade será reforçar a fundamentação de programas de prevenção nas escolas e noutros contextos de vida das crianças/jovens. Outra problemática a avaliar é se os rapazes vítimas de bullying homofóbico mostram mais sinais e sintomas de ansiedade, stresse e depressão do que as raparigas (Poteat & Espelage, 2007), recorrendo a uma metodologia mista, por incluir uma abordagem mais compreensiva desta realidade, com a finalidade de sustentar ações específicas e diferenciadas consoante o género da criança/jovem.

Por fim, os resultados do presente estudo remetem para a necessidade de se envolver, desde o 1º ciclo do Ensino Básico, alunos, pais, pessoal docente e não docente, em articulação com a autarquia municipal, no planeamento e implementação de programas anti-bullying em que os observadores passivos das situações de bullying passem a assumir uma atitude mais pró-ativa no suporte às vítimas e na denúncia, em sessões anti-bullying e na criação de grupos de ajuda às vítimas e/ou agressores e aos respetivos pais. Assim, conclui-se que tanto rapazes como raparigas são vítimas de bullying genérico e 35% do total dos participantes já foi vítima. Os episódios de bullying homofóbico aumentam com idade e de forma mais expressiva no género masculino. Quanto maior a frequência de vitimação por bullying homofóbico, mais a vítima se sente infeliz e humilhada e, apesar de ser maior a probabilidade de haver denúncia das ocorrências, nem sempre isso acontece.

Financiamento [TOP]

Os autores não têm financiamento a declarar.

Conflito de Interesses [TOP]

Um dos autores (H. Pereira) pertence ao Quadro Editorial da revista. Contudo, não desempenhou qualquer papel editorial, nem interveio de forma alguma no processo de seleção ou de avaliação por pares deste artigo.

Agradecimentos [TOP]

Os autores não têm quaisquer apoios a declarar.

Referências [TOP]

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